Eu confesso: não gosto muito de ler jornal. Talvez porque eu não goste muito da minha realidade, então ler sobre ela para mim é quase um fardo( que eu não estou afim de carregar).
Quando eu era criança eu lia o jornal todos os dias. Meu pai trabalhava em uma gráfica que imprimia os jornais da cidade em que nasci e morei toda minha infância. Ele trazia todos os dias um jornal para casa.
Um fato engraçado, e que talvez nem todos saibam é que esse jornal não existia nas segundas-feiras e nem em dias após feriados. As pessoas que trabalhavam na gráfica não trabalhavam nem em domingos e nem em feriados. Eu nem sei bem por que isso pode ser engraçado, mas eu me achava especial por ser a única menina da minha sala que sabia porque não tinha jornal nas segundas-feiras.
Eu lia o jornal todos os dias, exceto na segunda-feira ou em um dia após um feriado, tudo bem eu admito: eu não lia todo o jornal, só as futilidades: página de cultura, horóscopo e classificados. Eu adorava classificados. Acho que era para ver os anúncios de casa que eu poderia comprar quando crescesse.
Eu cresci, mas não comprei nenhuma casa. Entre a infância almejando comprar uma casa quando crescesse e crescer o meu pai morreu. Isso fez com que algumas perguntas surgissem em minha cabeça: Será que agora eu seria pobre? Será que teria que estudar em escola pública? E será e eu nunca mais ia ler jornal?
A resposta dessa ultima veio no mês seguinte, minha mãe assinou o jornal, aquele que era impresso na gráfica onde meu pai trabalhava. E melhor, o meu tio, que também era meu vizinho assinou um outro jornal, muito mais completo, vinha com palavras cruzadas, tirinhas do Hagar, e falava sobre coisas que aconteciam na capital.
Agora eu poderia ter tudo em dobro: duas páginas de cultura, dois horóscopos, por vezes com pensamentos antagônicos sobre ´´como seria meu dia`` o que me permitia escolher qual o melhor destino para acreditar. E duas páginas de classificados, aluga-se muito mais do que se vende em BH. Aluga-se tudo, principalmente a si próprio.
Com o tempo eu fui percebendo como as placas de aluga-se, bem como os anúncios, eram bem mais recorrentes em todos os lugares. Talvez porque para alugar gasta-se menos( ou não). Ou talvez porque a própria palavra aluga-se seja muito mais sonora do que compra-se ou vende-se, palavras que dependendo do objeto tomam uma conotação tão suja, ou tão capitalista, não que eu odeie o capitalismo.
Eu já disse que eu odeio ler jornal? Talvez porque eu não goste muito da minha realidade, então ler sobre ela para mim é quase um fardo( que eu não estou afim de carregar).
Já me disseram que se eu não estou satisfeita com as coisas como são, deveria tentar mudá-las. Eu tentei mudar o mundo no ultimo espetáculo, mas nada aconteceu. Então me reservo no direito de ler apenas: página de cultura, horóscopo e classificados.
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